Temperatura do oceano é a mais quente em 125 mil anos? Entenda a comparação
30/08/2026
(Foto: Reprodução) Por que a temperatura do oceano importa tanto?
Os oceanos estão hoje mais quentes do que estiveram nos últimos 125 mil anos? A comparação ganhou força depois que o observatório europeu Copernicus registrou, em 22 de agosto, o maior valor diário já medido pela sua série histórica: 21,1°C de temperatura média na superfície do mar.
🔴 Diferente de outras comparações que circulam nas redes sobre o clima, essa aqui tem respaldo científico. Mas a lógica por trás dela exige contexto, porque não existe um termômetro que media como era a temperatura no oceano há 125 mil anos.
O recorde de agosto superou todos os valores já registrados desde 1979, início da série histórica por satélite do Copernicus. A comparação com um passado tão distante vem de outro lugar: um estudo publicado na revista científica Science, que serve como referência para reconstruir o clima há milhares de anos.
⚠️ Antes, um alerta: o fato de a Terra já ter atingido temperaturas parecidas no passado não enfraquece a preocupação com o aquecimento global. Aquele calor teve causas naturais, pela variação de luz que o planeta recebia, e se desenvolveu ao longo de 13 mil anos. Essa subida devagar foi o bastante para a Terra se reorganizar diante dos efeitos. Por exemplo, naquela época, o mar subiu até 9 metros, o que, hoje, colocaria em risco boa parte das grandes cidades costeiras do mundo.
Gráfico mostra a temperatura média diária da superfície dos oceanos em 2026, que chegou a 21,1°C em 22 de agosto e superou os anos anteriores.
C3S/ECMWF
Os oceanos estão mais quentes que há 125 mil anos?
A base para entender isso são os estudos que analisam a temperatura no passado. Um deles foi publicado na Science em 2017, liderado pelo pesquisador e cientista climático Jeremy S. Hoffman, que reconstruiu a temperatura da superfície do mar durante o chamado Último Período Interglacial, intervalo entre 129 mil e 116 mil anos atrás.
➡️ Esse período foi a última vez em que o planeta esteve numa fase quente parecida com a atual, mas antes da industrialização, quando a humanidade começou a emitir cada vez mais gases relacionados ao efeito estufa e que provocam o aquecimento global. Com isso, ele funciona como uma espécie de retrato do clima sem a influência humana.
Como não existiam termômetros nem satélites naquela época, os cientistas recorrem a sedimentos depositados no fundo do oceano ao longo de milênios. Compostos químicos preservados nesses sedimentos funcionam como um registro indireto da temperatura da água no momento em que foram formados.
Além dos sedimentos, os pesquisadores também usaram modelos climáticos — não para reconstruir a temperatura em si, mas para calcular quanto desse aquecimento contribuiu para a elevação do nível do mar, e para testar se as simulações climáticas davam conta de prever o que os sedimentos mostravam.
➡️ O que a pesquisa encontrou: o pico de calor daquele período interglacial aconteceu há 125 mil anos, quando a temperatura média dos oceanos ficou estatisticamente empatada com a média registrada entre 1995 e 2014 — período recente, bem documentado por satélites.
Foi exatamente isso que o recorde do Copernicus fez: a marca de 22 de agosto, que foi de 21,1°C, ficou acima da média de 1995-2014 — que já era, segundo o estudo, o teto histórico dos últimos 125 mil anos.
Se o pico de calor de 125 mil anos atrás já equivalia à média dos oceanos entre 1995 e 2014, qualquer temperatura que hoje ultrapasse essa média recente também ultrapassa, por consequência, aquele pico do passado. O que vimos agora em agosto foi isso, uma média maior que a desse período e, por isso, muito maior do que o que já vimos em milhares de anos.
Além do valor em si, o momento em que o recorde aconteceu chama atenção. As temperaturas médias globais da superfície do mar costumam atingir seu ponto mais alto entre março e abril, depois do verão no Hemisfério Sul, que concentra a maior parte da superfície oceânica do planeta. Desta vez, porém, o recorde foi batido em pleno mês de agosto.
Mapa mostra áreas dos oceanos com temperaturas acima e abaixo da média em 22 de agosto de 2026. Tons de vermelho indicam águas mais quentes que o normal.
C3S/ECMWF
E de onde vinha o calor de 125 mil anos atrás? Ele era causado por variações naturais na quantidade de luz solar recebida pelo planeta — um fenômeno ligado a mudanças cíclicas na órbita da Terra, que ocorrem ao longo de dezenas de milhares de anos.
Enquanto isso acontecia, os níveis de CO2 na atmosfera se mantiveram estáveis, numa faixa entre 260 e 280 partes por milhão — bem diferente do salto que passou a ocorrer depois da Revolução Industrial, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis.
Isso significa então que a Terra tem resiliência para o aquecimento e não é necessário se preocupar? O que os especialistas alertam é que é o contrário. Estamos chegando a patamares de calor nunca antes vivos no planeta e que tem consequências.
Para se ter uma noção, no Período Interglacial, o nível do mar chegou a ficar entre 6 e 9 metros mais alto que o atual, isso colocaria em risco milhões de pessoas no mundo que vivem em regiões litorâneas.
E por que isso está acontecendo?
O Copernicus, que é quem faz esse monitoramento, atribui o recorde a uma combinação de dois fatores:
O fortalecimento de um El Niño no Pacífico;
E o aquecimento global, que vem aquecendo os oceanos no longo prazo.
"Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob pressão crescente", afirmou Samantha Burgess, líder de Estratégia Climática do Centro Europeu de Previsão Meteorológica a Médio Prazo (ECMWF), que coordena os dados do Copernicus.
Segundo boletim divulgado pela agência climática dos Estados Unidos (NOAA) em agosto, a chance de o El Niño atual chegar a uma intensidade muito forte entre outubro e dezembro é de 95%.
➡️ O El Niño é um aquecimento das águas do Pacífico Equatorial que altera a circulação da atmosfera e influencia o clima em várias partes do mundo, inclusive a temperatura média dos oceanos como um todo.
Mas ele ocorre em cima de um oceano já mais quente. Desde o fim de março de 2023, as temperaturas da superfície dos oceanos vêm atingindo recordes.
➡️ O ponto de partida disso é o efeito estufa: gases como o dióxido de carbono impedem que parte da radiação da Terra escape para o espaço, e esse excesso de calor fica retido no sistema climático.
Oceanos estão ficando mais quentes
Pexels
Os oceanos funcionam como um imenso reservatório desse calor — absorvem cerca de 90% de todo o excesso retido na atmosfera. Aos poucos, essa energia é devolvida ao ar em forma de umidade.
O problema é o ritmo. Com os oceanos absorvendo cada vez mais calor, esse processo de liberação também acelera, e a atmosfera recebe mais umidade do que recebia antes. É esse excesso que ajuda a explicar por que as chuvas têm ficado mais intensas em diversas partes do mundo.
"O oceano é nosso grande bolsão de proteção contra o aquecimento na Terra, mas ele também tem um limite. Esse nível de aquecimento é um alerta de risco para a humanidade", explica Rodrigues.
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E qual o risco para a humanidade?
O aquecimento dos oceanos tem efeitos que vão além da temperatura da água em si. Ele pode mudar dinâmicas que afetam a vida na Terra e dão combustível a fenômenos que podem se transformar em desastres letais.
Quando o oceano está muito quente, ele evapora mais e leva muita água para a atmosfera. Com isso, toda a circulação, que sempre ocorreu, acontece em uma situação de maior volume. Isso faz com que as chuvas se formem com mais intensidade e mais rápido — um dos fatores por trás de tempestades como a do Rio Grande do Sul e da Espanha, em 2024, ambas devastadoras e letais.
Infográfico explica influência dos oceanos nas enchentes
Arte/g1
Além disso, ainda há o risco de elevação do nível do mar: à medida que a água aquece, ela se expande, contribuindo para o aumento do nível dos oceanos e ampliando riscos para cidades costeiras e ilhas de baixa altitude.
As ilhas do Oceano Pacífico estão em risco. Elas podem ser completamente engolidas pelo avanço do mar, que vem subindo ano a ano, reflexo das mudanças climáticas. A Organização das Nações Unidas (ONU) já classifica a questão na região como uma "catástrofe mundial".
"As ilhas são como um projeto piloto do que vai acontecer com o mundo quando os oceanos avançarem sem que a gente faça nada. Uma amostra do que vai acontecer com todas as regiões costeiras ao redor do mundo", explica Regina Rodrigues.
Pilha de carros em rua de Valência após enchente história, em 1º de novembro de 2024.
Susana Vera/ Reuters
Além disso, o calor também afeta recifes de corais, vegetação submarina e outras espécies. Esse ecossistema é importante para o equilíbrio dos oceanos e tem impactos na vida humana.
Esse impacto chega também à economia. Mudanças prolongadas de temperatura alteram cadeias alimentares marinhas e podem prejudicar atividades como pesca e aquicultura, especialmente em regiões que dependem desses recursos.