Por que as mulheres devem ser uma prioridade nos estudos sobre longevidade

  • 18/08/2026
(Foto: Reprodução)
Em média, as mulheres vivem mais do que os homens – no Brasil, a expectativa de vida delas é de quase 80 anos, enquanto a deles fica em torno de 73 anos – apesar de enfrentarem uma carga maior de doenças crônicas. Para os pesquisadores Pankaj Kapahi e Parminder Singh, do Instituto Buck, as mulheres talvez sejam a peça-chave nos esforços para descobrir maneiras de estender a expectativa de vida saudável. A tese da dupla chama-se Hipótese da Resiliência Reprodutiva: propõe que a reprodução e a longevidade, frequentemente vistas como forças biológicas opostas, podem estar intimamente ligadas. Sucesso reprodutivo depende de sobreviver tempo suficiente para procriar repetidamente, e a evolução pode favorecer a capacidade do corpo de resistir ao estresse Greyerbaby para Pixabay “Se quisermos entender por que os organismos envelhecem, a natureza nos aponta para o estudo das mulheres, o sexo no qual a reprodução molda de forma mais profunda o curso do envelhecimento”, diz o professor Kapahi, autor sênior do artigo publicado no começo do mês. “A Hipótese da Resiliência Reprodutiva é uma nova estrutura evolutiva para entender por que procriar acelera o envelhecimento em alguns cenários biológicos, mas está associada a uma longevidade excepcional em outros”, complementa. As teorias clássicas do envelhecimento costumam descrever a reprodução e a longevidade como um trade-off (uma relação de compensação). Funcionaria assim: como os organismos têm energia limitada, investir na reprodução resultaria em menos recursos para a manutenção do corpo. Os autores afirmam que, embora a explicação seja útil, não esclarece um padrão recorrente na natureza: em muitas espécies, o sexo que investe pesadamente em gravidez, lactação e cuidados com a prole é também o sexo de vida mais longa. A tese dos cientistas indica que, quando o sucesso reprodutivo depende de sobreviver tempo suficiente para procriar repetidamente, a evolução pode favorecer programas biológicos que fortalecem a capacidade do corpo de resistir ao estresse. Nessas condições, a reprodução e a manutenção de longo prazo se encontram conectadas, em vez de serem opostas. “Nossa perspectiva ajuda a explicar por que os mamíferos fêmeas com frequência vivem mais que os machos, por que insetos-rainhas combinam uma fertilidade extraordinária com longevidade, e por que a vida útil dos machos pode se igualar ou superar a das fêmeas em espécies onde os pais fornecem cuidados substanciais aos filhotes”, argumenta Singh, que lidera a pesquisa no laboratório de Kapahi. Longevidade feminina: Mulheres vivem mais porque cuidam mais da saúde; veja Um novo olhar sobre a menopausa Os autores defendem que a menopausa não deve ser vista apenas como o fim da fertilidade, mas também significar um ponto de inflexão relevante. Durante a vida fértil, os sinais ovarianos são integrados a sistemas que controlam o metabolismo, a saúde óssea, a regulação imunológica, a função cerebral, as respostas ao estresse, o reparo tecidual e a comunicação entre órgãos. À medida que a função ovariana declina, essa sofisticada rede se desestabiliza, expondo vulnerabilidades que antes eram amenizadas. Nessa perspectiva, a menopausa não é simplesmente a diminuição da produção de estrogênio. Ela representa uma disrupção mais ampla dos sinais e das redes fisiológicas que conectam a função reprodutiva com a preservação de todo o organismo. “O ovário não deve ser visto como um órgão que se limita a produzir óvulos e hormônios sexuais”, diz Singh. “Ele pode funcionar como um centro de comunicação cujos sinais endócrinos, metabólicos, imunológicos e parácrinos (comunicação celular entre células vizinhas) ajudam a coordenar o estado fisiológico de órgãos distantes.” Ambos enfatizam que sua hipótese não é uma explicação do envelhecimento feminino centrada no estrogênio, porque o declínio também avança por meio de processos como danos ao DNA, agregação de proteínas, disfunção mitocondrial, exaustão de células-tronco e degeneração tecidual específica, que podem ocorrer independentemente do estado reprodutivo. “Não estamos propondo que o envelhecimento ovariano seja a única causa do envelhecimento sistêmico”, ressalta Kapahi. “Em vez disso, o declínio ovariano pode remover uma camada importante de coordenação fisiológica. Essa perda interagiria em diversas frentes: envelhecimento cronológico, genética, inflamação, metabolismo, exposições ambientais e danos específicos a tecidos”. Curiosamente, a restauração de aspectos da função ou sinalização ovariana em modelos experimentais demonstrou melhorar desfechos relacionados à saúde. Além de investigar como o ovário se comunica com órgãos distantes, incluindo o cérebro, ossos, sistema imunológico e tecidos metabólicos, Kapahi e Singh querem entender os efeitos do envelhecimento reprodutivo na interrupção dessa comunicação, e testar se sinais ovarianos benéficos podem ser restaurados sem depender exclusivamente da reposição hormonal convencional. “A biologia feminina deve ser priorizada não somente para corrigir uma lacuna antiga na pesquisa biomédica”, acrescentou Singh, “mas porque pode revelar mecanismos de resiliência que nos ajudem a entender como estender a expectativa de vida saudável tanto em mulheres quanto em homens.” A ilustração apresenta o ovário como um centro biológico central que ajuda a coordenar a saúde em todo o corpo feminino. Folículos em desenvolvimento povoam um lado do mostrador do relógio, enquanto os tecidos impactados estão do outro lado. Sua disposição simboliza como os sinais reprodutivos podem influenciar múltiplos órgãos Parminder Singh, PhD

FONTE: https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2026/08/18/por-que-as-mulheres-devem-ser-uma-prioridade-nos-estudos-sobre-longevidade.ghtml


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