O berço das águas: restauração no Cerrado aumenta em 79% retenção do solo e alimenta o Pantanal

  • 30/10/2026
(Foto: Reprodução)
Restauração no Cerrado aumenta em 79% a retenção do solo e alimenta o Pantanal A restauração de áreas degradadas no Cerrado pode ajudar a conservar a água que abastece o Pantanal. Um levantamento do WWF-Brasil obtido com exclusividade pelo g1 identificou que áreas em processo de recuperação há três anos retiveram 79% mais solo. O estudo também apontou aumento de 44% na infiltração de água. Assista ao vídeo acima. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp O estudo foi realizado entre 2022 e setembro de 2026, em 85 municípios e 16 sub-bacias hidrográficas na faixa de transição entre o Cerrado e o Pantanal. O trabalho foi dividido em duas fases: 🌱primeiro, pesquisadores fizeram o planejamento e o diagnóstico das áreas prioritárias; 🌎depois, passaram à execução de ações de restauração, conservação do solo e assistência técnica a produtores rurais. Para medir a retenção do solo, os pesquisadores realizaram ensaios experimentais de campo com simuladores de chuva. Os equipamentos aplicaram precipitação controlada sobre parcelas delimitadas de terreno, permitindo comparar o volume de sedimentos carregados pela água em áreas de solo exposto e degradado com o de áreas que estavam havia três anos em processo de regeneração vegetal. ➡️ A medição indicou que as áreas em restauração conseguiram reter 79% mais terra do que as áreas de solo exposto. A vegetação e a palhada amortecem o impacto das gotas de chuva sobre o terreno e reduzem a velocidade do escoamento superficial. Com isso, dificultam que a camada fértil seja carregada para os rios e provoque assoreamento. ➡️➡️Já o aumento de 44% na infiltração indica que a água da chuva consegue penetrar mais no solo, em vez de escoar rapidamente pela superfície. Esse processo contribui para a recarga das águas subterrâneas e para a manutenção dos cursos d'água. Infográfico mostra dados de pesquisa envolvendo Cerrado e Pantanal. Informações: g1 MS/ Produção: IA As árvores que ajudam as cabeceiras do Pantanal Nereu Rios é viveirista em Mato Grosso do Sul. Arquivo pessoal/Reprodução O trabalho de restauração, no entanto, não ocorre apenas nos estudos e nos números. Em Mato Grosso do Sul, o viveirista Nereu Rios, de 68 anos, dedica mais de quatro décadas à recuperação da vegetação. Nascido em Dourados, ele guarda na memória a derrubada de grandes matas de peroba-rosa e ervais da região durante a expansão agropecuária, nos anos 1970. Daquela lembrança surgiu um compromisso: devolver a vegetação nativa à terra. "Quando vim para Campo Grande, ainda menino, entendi que cuidar de plantas e recuperar a vegetação era a minha missão. Tá no DNA", relembrou Nereu. Ao longo da carreira, Nereu plantou mais de 2 milhões de árvores. Para coletar sementes de espécies nativas, percorre anualmente, entre agosto e setembro, até 7 mil quilômetros por estradas de Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia e Minas Gerais. Expedição para coleta de sementes no Cerrado. Nereu Rios/Arquivo pessoal A coleta abastece projetos de restauração e ajuda a manter a diversidade genética das áreas recuperadas. O trabalho também movimenta a economia de comunidades locais: uma rede de sementes comunitárias ligada à atividade já gerou cerca de R$ 11 milhões em renda para aproximadamente 800 coletores de assentamentos, territórios quilombolas e comunidades tradicionais, segundo os levantamentos do viveirista. Há 16 anos, a experiência de Nereu ganhou escala no Viveiro Isaac de Oliveira, mantido em Campo Grande em parceria com a concessionária Águas Guariroba. O espaço tem capacidade para produzir cerca de 90 mil mudas por ano de 85 espécies do Cerrado, entre elas ipê-roxo, tarumã, jacarandá e manduvi. O gerente de meio ambiente da Regional da Aegea, Fernando Garayo, explica que a escolha das espécies precisa considerar as características de cada área a ser recuperada. “Não basta plantar árvores: é preciso selecionar espécies adequadas para cada ambiente, respeitando as características do Cerrado e as particularidades de cada área. Em margens de rios e nascentes, priorizamos plantas compatíveis com a umidade; em solos mais secos, espécies resistentes à estiagem. A diversidade é fundamental para aproximar a área recuperada do ecossistema original. E o trabalho não termina quando a muda vai para o chão: a restauração exige monitoramento contínuo para que a vegetação cumpra sua função de proteger a água”, explica Garayo. Viveiro em Campo Grande. Reprodução O viveiro também tem uma dimensão social. A produção de mudas conta com a participação de reeducandos do Centro de Integração Social da Gameleira, que recebem salário, alimentação, remição de pena e capacitação profissional em restauração florestal. Para Nereu, o trabalho de plantar árvores representa uma contribuição que se constrói aos poucos, mas que pode transformar a paisagem. “Isso me lembra da história do beija-flor tentando apagar a floresta. A floresta pegando fogo e o beija-flor ia lá com o biquinho jogar umas gotinhas de água tentando apagar a floresta e o leão falando pra ele que não adiantava... É uma coisa irrisória, mas a gente vai mudando”, reflete o viveirista. O Cerrado que mantém o Pantanal vivo Biólogo ficou cerca de uma hora acompanhando os passos da onça no Pantanal Gustavo Figueirôa/Arquivo Pessoal A relação entre os dois biomas começa na geografia. O Cerrado ocupa áreas de planalto onde estão nascentes que alimentam rios importantes para a planície pantaneira. Segundo o biólogo Gustavo Figueirôa, do SOS Pantanal, cerca de 80% da água e dos sedimentos que sustentam o Pantanal têm origem nas cabeceiras do planalto. Figueirôa explica que quase não existem nascentes no interior da planície. Por isso, o funcionamento do Pantanal depende também da conservação das áreas de cabeceira e da vegetação nativa que protege o solo. “Quando você preserva o Planalto, recupera as nascentes, permite que a água da chuva seja absorvida, entre no lençol freático e escorra de forma cadenciada para o sistema. O Pantanal depende diretamente da água que nasce no Cerrado para manter seu ecossistema. Às vezes não conectamos o Pantanal a outros biomas de forma instintiva, mas ele está intrinsecamente ligado à saúde de seus vizinhos”, destaca Gustavo. A vegetação nativa funciona como uma espécie de esponja natural. Além de favorecer a infiltração da água, protege o solo contra o impacto da chuva. Quando essa cobertura é retirada, a água tende a escoar com mais velocidade, carregando sedimentos para os rios. O processo pode agravar o assoreamento de cursos d'água importantes para a planície, como o rio Taquari. 🔎Mais de 800 km de extensão e responsável por 36% da água do Pantanal, o rio Taquari já teve seus anos de majestade. De acordo com o Instituto Taquari Vivo, organização criada para auxiliar na busca por soluções para a restauração ambiental e produtiva da bacia do Alto Taquari, o processo de assoreamento do rio começou no final dos anos 70 e início dos 80, com o avanço da ocupação da população em áreas de proteção dos córregos e nascentes, intensificando as perdas de solo. Os sedimentos passaram a se acumular nas calhas dos rios e ser despejados na planície pantaneira. O gerente de meio ambiente da Regional da Aegea, Fernando Garayo, explica que a proteção do solo está diretamente relacionada à conservação dos recursos hídricos. “Quando a gente tem mais árvores e um solo protegido, a gente acaba tendo mais água. Proteger o solo proporciona mais infiltração e evita que a terra chegue até o rio causando assoreamento”, aponta. ➡️Os estudos do WWF-Brasil também mostram que pastagens bem manejadas podem aumentar em 59% a retenção de solo e em 34% a infiltração de água em comparação com áreas de terra exposta. Cada R$ 1 investido pode gerar até R$ 8 em retorno Morro do Paxixi, área de transição entre o Cerrado e Pantanal. LuizMendes/ArquivoPessoal A conservação das cabeceiras também foi analisada sob o ponto de vista econômico. Um estudo de custo-benefício avaliou 24 cenários de restauração e conservação do solo em microbacias prioritárias. Em 20 deles, a relação entre custos e benefícios foi positiva. Segundo o levantamento realizado pelo WWF-Brasil em parceria com a Aegea, cada R$ 1 investido em restauração e conservação pode gerar até R$ 8 em retorno econômico e ambiental. Entre os benefícios considerados estão: 💧 A redução dos custos de tratamento de água para abastecimento público; 🌾 O aumento da produtividade agropecuária; 🌳 Os ganhos ambientais e de regulação hídrica na bacia. ⚠️O cálculo também considera a eficiência de intervenções realizadas em áreas contínuas e próximas umas das outras. Na Área de Proteção Ambiental (APA) do Córrego Guariroba, manancial estratégico responsável pelo abastecimento de Campo Grande, ações de recomposição vegetal em APPs foram associadas a um aumento de 10% na vazão do córrego. A bacia está localizada no Cerrado e tem papel importante na segurança hídrica da capital sul-mato-grossense. Para Garayo, a conservação precisa começar muito antes de a água chegar às estações de tratamento. “Quando falamos em segurança hídrica, estamos falando de um trabalho que começa muito antes de a água chegar à estação de tratamento. Ele começa na conservação das nascentes, na recuperação das áreas degradadas e no cuidado com o território. Cada muda produzida e plantada representa um investimento direto no futuro dos nossos recursos hídricos”, destaca. Restauração brasileira ganha espaço na COP17 Os dados do WWF-Brasil sobre as Cabeceiras do Pantanal também foram usados como base de discussão no Dia da Restauração, durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), na Armênia, nesta quinta-feira (29). O encontro reúne especialistas para discutir como ampliar o financiamento e os incentivos econômicos à restauração de ecossistemas. A conferência também marca o balanço de meio caminho da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas e os desafios para cumprir a meta global de colocar 30% das áreas degradadas do planeta sob recuperação até 2030. Segundo o WWF-Brasil, o Brasil é o único país do mundo com duas iniciativas reconhecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Referências da Restauração Mundial (World Restoration Flagships): a Mata Atlântica e a Rede Araticum. A articulação reúne mais de 180 organizações e tem a meta de colocar 2 milhões de hectares sob restauração no Cerrado até 2030. Durante a convenção, a diplomacia ambiental brasileira também levou uma proposta oficial para incluir a conectividade ecológica como o quinto elemento do Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). A ideia é ampliar a integração entre áreas naturais por meio de corredores terrestres e hídricos, em vez de proteger apenas fragmentos isolados de vegetação. “A natureza não funciona de forma fragmentada, e nossas políticas e investimentos também não deveriam funcionar assim. Restaurar nos lugares certos, reconectando habitats e protegendo os caminhos da água, amplia os benefícios para a biodiversidade, o clima e a economia. Essa é uma mensagem importante que levamos à COP17: precisamos transformar compromissos globais em condições concretas de implementação nos territórios”, explica Taruhim Quadros, líder de Restauração e Ecossistemas do WWF-Brasil. Para Flávia Araújo, líder de Restauração nas Cabeceiras do Pantanal do WWF-Brasil, a conservação do bioma pantaneiro depende diretamente do que acontece nas áreas de nascente. “Não existe Pantanal saudável sem um Cerrado saudável. O que acontece nas cabeceiras dos rios afeta diretamente a água, a biodiversidade e as atividades produtivas da planície pantaneira”, afirma. Desmatamento no Cerrado cai, mas áreas degradadas ainda preocupam Desmatamento na Amazônia e no Cerrado cai para o menor nível desde o início das medições Jornal Nacional/ Reprodução A restauração ocorre em um bioma que ainda enfrenta pressão sobre a vegetação nativa. O desmatamento na Amazônia e no Cerrado caiu ao menor nível de suas respectivas séries históricas entre agosto de 2025 e julho de 2026, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Dados oficiais do Inpe apontam que o desmatamento no Cerrado foi de 5.516,69 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026. O resultado representa uma queda de 23,8% em relação ao período anterior e é o menor valor da série histórica do bioma, iniciada em 2001. Em quatro anos, a redução acumulada foi de 48,4%. Apesar da diminuição do desmatamento, a recuperação de áreas já alteradas continua sendo um desafio. Segundo dados do WWF-Brasil, 58% da paisagem da região das Cabeceiras do Pantanal foi alterada e 67% das pastagens estão degradadas. A queda do desmatamento e a restauração de áreas degradadas são processos diferentes. Enquanto o monitoramento do Inpe mede a supressão da vegetação nativa, os projetos de restauração buscam recuperar funções ambientais que foram perdidas, como a proteção do solo, a infiltração da água e a conservação das nascentes. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul:

FONTE: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/10/30/o-berco-das-aguas-restauracao-no-cerrado-aumenta-retencao-do-solo-e-alimenta-o-pantanal.ghtml


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